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Full text of "Os Dois Senhores do Ensino Médio"

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OS DOIS SENHORES DA EDUCAÇÃO MÉDIA 
Simon Schwartzman 


Publicado na Folha de São Paulo, Caderno Especial sobre Educação Técnica, 


A educação média, no mundo de hoje, é chamada a 
atender a dois senhores: o da qualificação para as 
atividades profissionais e acesso ao mercado de 
trabalho, e o da equidade social. 

No passado, a questão da equidade não se colocava: 
os jovens das famílias mais ricas estudavam nas 
escolas de elite para as profissões de mais prestígio e 
mais bem pagas, e os mais pobres, ou não estudavam, ou iam para cursos práticos 
onde eram preparados para empregos de menor prestígio e baixos salários. O 
Brasil, nos anos 40, que até então mal educava suas elites, tentou copiar o modelo 
europeu, dividindo a educação média entre cursos gerais, para os poucos que se 
preparavam para as universidades, e cursos profissionais (industriais, agrícolas, 
comerciais) para os filhos dos trabalhadores. Na Europa, com isto, foi possível 
ampliar a educação e criar um operariado competente que se beneficiou do 
crescimento da economia, sem, entretanto, eliminar as diferenças sociais entre os 
dois tipos de educação. No Brasil, a educação profissional de nível médio estagnou, 
e os empresários, com fortes subsídios, tomaram em suas mãos a aprendizagem 
dos trabalhadores com o Sistema “S”. 

No Brasil e no mundo, agora, as coisas mudaram. Na Europa, o setor industrial 
diminuiu, os empregos para as qualificações profissionais mais simples se 
reduziram, e a divisão rígida entre educação geral e educação profissional começou 
a ser vista como discriminatória e em grande parte disfuncional. Enquanto isto, o 
Brasil ampliou o acesso ao ensino médio, que hoje é obrigatório por lei, e eliminou 
de vez a possibilidade de trilhas diferentes de formação - a educação técnica, que 
antes era uma opção, hoje só é aceita como um estudo complementar ao ensino 
convencional. 



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Na Europa, ninguém pensa em acabar com os diferentes tipos de formação para a 
juventude, não só porque a economia moderna requer pessoas com perfis muito 
distintos, mas também porque as pessoas diferem em seus interesses, motivações 
e capacidade de estudar e aprender, e não podem ser colocadas em um molde 
único. Nos diferentes países europeus, a educação comum, que terminava aos 11 
ou 12 anos, agora vai até os 15 ou 16, os conteúdos gerais de linguagem, 
computação e raciocínio matemático dos cursos técnicos são reforçados, e os 
certificados técnicos de nível médio, como bac técnico francês, são valorizados e 
dão acesso à educação superior. 

A opção brasileira por um currículo médio único, pautado por um Exame Nacional 
também único, tem uma explicação prática, e outra ideológica. A prática é que o 
prestígio e a renda proporcionados pelos diplomas universitários ainda são 
relativamente muito altos, quando comparados com os dos diplomas de nível médio, 
e o ensino técnico, com a exceção dos cursos altamente seletivos dos institutos 
federais e estaduais, ainda é visto pela população como um caminho menos 
desejado. A ideológica é a noção, buscada nos escritos de Gramsci dos anos 20, e 
adotada pelo Ministério da Educação, de que a educação técnica, voltada para as 
necessidades do mercado de trabalho, aliena os trabalhadores e os impede de 
desenvolver a consciência crítica e revolucionária que só uma educação clássica 
tradicional poderia proporcionar. 

O resultado desta opção foi que ela não consegue atender a nenhum de seus dois 
senhores. A educação geral é de péssima qualidade, e não produz os quadros 
técnicos e profissionais com a qualidade e a quantidade necessários para economia 
moderna; e o sistema escolar é fortemente estratificado, com milhões de estudantes 
submetidos a um currículo tradicional que poucos conseguem acompanhar, na 
disputa encarniçada no ENEM pelas poucas vagas disponíveis na educação 
superior de qualidade. Parece uma competição por competências, mas por detrás 
dela estão as profundas diferenças de condições de vida e oportunidades que 
persistem na sociedade brasileira. 

É este duplo fracasso, de relevância econômica e equidade social, que leva à 
necessidade de se transformar profundamente o ensino médio brasileiro, 
aproximando-o do que ocorre no resto do mundo, com uma pluralidade de caminhos 
e alternativas, gerais e profissionais, teóricas e práticas, capazes de dar 


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oportunidades e atender às condições e necessidades de uma população 
heterogênea e de uma economia que precisa de pessoas capacitadas em todos os 
níveis para se desenvolver. 


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